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Água para quem? A lição que Roma ainda nos dá sobre gestão

Caminhar por Roma é encontrar história em cada esquina — e também água. Não apenas nos aquedutos imperiais ou nas fontes barrocas das praças, mas em pequenas estruturas de ferro fundido que jorram água potável 24 horas por dia: os nasoni.

São mais de 2.500 espalhados pela cidade, garantindo acesso gratuito a moradores e visitantes. Criados em 1874, além de oferecerem água a todos, também ajudam a regular a pressão da rede, prevenindo vazamentos. São um exemplo simples e poderoso de como infraestrutura e valores sociais podem caminhar juntos.

Essa tradição de tratar a água como bem comum atravessa a história de Roma. Os aquedutos imperiais não eram apenas obras de engenharia, mas instrumentos de cidadania: levar água às fontes, às termas e aos bairros significava afirmar que a cidade pertencia ao seu povo.

Esse espírito foi reafirmado em 2011, quando um referendo histórico mobilizou mais de 27 milhões de italianos — e 94% disseram não à privatização da água.

São Paulo na contramão

Enquanto isso, a gestão de Tarcísiod e Freitas em São Paulo o caminho seguido é o oposto. Desde a alteração do Marco Legal do Saneamento em 2020, graças ao lobby das empresas privadas de saneamento, a privatização avança rapidamente: a participação de operadores privados saltou de 5% para 30% da população em apenas cinco anos, e já alcança mais de 1.600 municípios.

O discurso oficial promete universalização até 2033, mas a realidade mostra outra coisa: tarifas em alta, serviços precários e desigualdades aprofundadas. Manaus, após mais de duas décadas de concessão, segue com apenas 12% de cobertura de esgoto. No Rio de Janeiro, a concessão da Cedae só garantiu aumento abusivo da tarifa.

O movimento global pela reestatização

A experiência brasileira não é isolada. Em todo o mundo, cidades que privatizaram os serviços de água estão revertendo esse modelo. Mais de 270 casos de reestatização foram registrados em 37 países entre 2000 e 2019, segundo o Transnational Institute. Paris, Berlim, Buenos Aires, Maputo e dezenas de municípios dos EUA voltaram a assumir a gestão pública da água depois de anos de tarifas abusivas, investimentos insuficientes e exclusão social.

Essas experiências revelam que a privatização não é destino inevitável. Ao contrário: há um movimento crescente de retomada pública da água, como resposta à financeirização de um recurso essencial à vida.

Água como projeto de sociedade

Pensar a água hoje é pensar muito além de torneiras e encanamentos. É pensar em projeto de sociedade, futuro e vida em harmonia com o planeta. É decidir se esse recurso vital será tratado como mercadoria para gerar lucro a poucos, ou como direito humano fundamental, base da justiça social e ambiental.

Roma nos mostra que é possível combinar eficiência técnica com solidariedade coletiva. A Itália mostrou, nas urnas, que o povo pode dizer “não” à mercantilização. O Brasil precisa escolher: seguir na trilha da privatização que exclui, ou construir uma política de água pública, democrática e sustentável.

Talvez a pergunta que os italianos fizeram em 2011 ecoe cada vez mais forte entre nós:

Água, para quem?

Com informações do Portal Outras Palavras