Enquanto o governo do Estado e a Sabesp privatizada comemoram números e divulgam “economia de bilhões de litros”, a realidade nas periferias e também nos bairros centrais de São Paulo é outra: torneiras secas, rotina improvisada e prejuízo para trabalhadores e pequenos comércios.
Desde agosto do ano passado, a concessionária adotou a redução de pressão no abastecimento entre 19h e 5h em toda a Região Metropolitana. Oficialmente, não é chamado de rodízio. Mas, na prática, para milhares de famílias, é falta d’água todo dia.
Banho de garrafa e janta às pressas
Na Vila Sônia, zona oeste, trabalhadora chega às 23h e toma banho com garrafas que enche pela manhã. No Grajaú e em Paraisópolis, mães correm para preparar o jantar e o banho das crianças antes das 19h ou 20h, quando a água simplesmente deixa de chegar.
Em bairros como Itaquera, Brasilândia e Butantã, moradores relatam interrupções diárias ou pressão tão fraca que a água não sobe para casas em áreas mais altas — cenário ainda mais cruel para quem não tem caixa d’água.
A desigualdade hídrica escancara a perversidade do modelo: quem pode investir em reservatório sofre menos. Quem vive na ponta (vulnerável), paga a conta.
Comércio prejudicado e prejuízo acumulado
O impacto não é só doméstico. Lavanderias atrasam entregas por falta de água. Cafeterias deixam de servir clientes. Restaurantes recorrem a copos descartáveis para economizar. Cinemas chegam a interditar banheiros.
Empresas de caminhão-pipa relatam aumento na procura, especialmente por parte de restaurantes e condomínios. Ou seja: a crise vira custo extra para quem trabalha e empreende, enquanto a concessionária segue defendendo a “gestão da demanda”.

Privatização: lucro blindado, povo penalizado
A Sabesp afirma que a redução de pressão é medida preventiva determinada pela Arsesp e que já teria economizado 83 bilhões de litros. Também anuncia bilhões em investimentos até 2027.
Mas a pergunta que ecoa nas casas sem água é simples:
se há investimento recorde e gestão eficiente, por que a população precisa tomar banho de garrafa em pleno período de chuvas?
Especialistas alertam que o que está em curso é, sim, um racionamento disfarçado. A redução da pressão produz o mesmo efeito prático de um rodízio — principalmente nas áreas mais vulneráveis.
A privatização prometeu eficiência, modernização e segurança hídrica. O que o povo está vivendo é insegurança, improviso e incerteza diária.
Água é direito, não mercadoria
A crise expõe o risco de submeter um serviço essencial à lógica do mercado. Quando a prioridade passa a ser resultado financeiro e dividendos, o direito básico à água potável fica em segundo plano.
O Sintaema reafirma: água é direito humano, não ativo financeiro.
Seguiremos denunciando os efeitos da privatização, defendendo investimentos estruturantes de verdade e cobrando transparência, planejamento e respeito à população paulista.
Porque dignidade não pode depender da pressão na rede.







