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Falência Global das Águas: A crise hídrica exige mudança de paradigma, defendo o Sintaema

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Em 20 de janeiro de 2026, o Instituto da ONU para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) lançou o relatório Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era. O documento afirma que o planeta entrou em um novo estágio da crise hídrica: a chamada falência global das águas.

Segundo os coordenadores do estudo, não estamos mais diante de crises isoladas ou pontuais, mas de uma condição estrutural que ameaça a base da vida e da economia global. A escassez deixou de ser episódica e passou a refletir um desequilíbrio profundo entre a capacidade de reposição da natureza e o volume de água consumido pelo atual modelo econômico.

Da gestão de crises à gestão da falência hídrica

O relatório defende abandonar a lógica reativa — que apenas responde a emergências — e adotar uma gestão da falência hídrica. Isso significa:

  • reconhecer os limites físicos do planeta;
  • reduzir usos incompatíveis e insustentáveis;
  • garantir transparência na contabilidade hídrica;
  • proteger o capital natural que produz e armazena água (aquíferos, solos, rios, geleiras e áreas úmidas);
  • incorporar a justiça social, assegurando que comunidades vulneráveis não sejam sacrificadas.

Ignorar a insolvência hídrica, alerta o documento, apenas aprofunda os riscos sobre o ativo mais essencial da economia global.

Os números são contundentes: metade dos grandes lagos perdeu volume desde os anos 1990; 70% dos principais aquíferos estão em declínio; bilhões de pessoas enfrentam escassez severa ao longo do ano; áreas úmidas desaparecem em ritmo acelerado; terras agrícolas sofrem salinização e estresse hídrico.

Não se trata de um alerta retórico. É um diagnóstico científico que redefine a crise hídrica como uma insolvência estrutural.

Dried up planet immersed in the waters of world ocean “Elements of this image furnished by NASA”

Água como eixo de cooperação global

Apesar do cenário alarmante, o relatório também aponta caminhos. A água pode ser uma plataforma estratégica de cooperação em um mundo fragmentado. Investimentos sérios em gestão hídrica podem impulsionar:

  • a agenda climática (mitigação e adaptação);
  • a proteção da biodiversidade e revitalização de ecossistemas;
  • a segurança alimentar;
  • a prevenção de doenças relacionadas à água;
  • a estabilidade e resiliência econômica.

Agir cedo, antes que o estresse hídrico se transforme em perda irreversível, reduz riscos, fortalece a resiliência e reconstrói a confiança entre sociedades.

Entre as medidas defendidas pelos cientistas estão a restauração de áreas úmidas, a proteção de rios de fluxo livre, a integração entre paisagens terrestres e aquáticas e a transição para uma agricultura regenerativa.

O Brasil e a urgência da prevenção

No contexto brasileiro, essa mudança de paradigma precisa significar a transição da gestão de desastres para a gestão preventiva e resiliente. Isso inclui:

  • investimento em infraestrutura verde;
  • redução de perdas nos sistemas de abastecimento;
  • ampliação do reuso de água;
  • despoluição de rios e mananciais;
  • drenagem sustentável com aproveitamento da água da chuva;
  • fortalecimento da governança hídrica;
  • incentivo à agroecologia e modernização sustentável da irrigação;
  • recuperação de nascentes e solos degradados.

Também passa por uma transformação cultural: uma nova ética de cuidado com a água.

O Sintaema acompanha o debate

O Sintaema acompanha de forma permanente esse debate estratégico sobre água, saneamento e justiça ambiental. Inclusive, durante a COP30, no Pará, o sindicato frisou que não há política climática séria sem garantir água como direito humano, com gestão pública, transparência e controle social.

A entidade defende que enfrentar a falência hídrica exige planejamento público, investimentos estruturantes e participação da sociedade. Não é possível responder a uma crise estrutural com soluções fragmentadas ou subordinadas exclusivamente à lógica de mercado.

Água é o ativo mais estratégico da humanidade

A falência global das águas é o alerta definitivo: ou mudamos radicalmente nossa relação com os recursos hídricos e naturais, ou enfrentaremos o colapso do ativo mais essencial da vida e da economia.

Colocar os ecossistemas de água doce no centro da agenda política não é opção — é condição para garantir futuro.

Para o Sintaema, água é direito, é soberania, é saúde pública e é dignidade. Defender sua gestão sustentável e socialmente justa é defender a vida.