Crise da água: trabalhadores da Sabesp sofrem hostilidade da população

Publicado em 24/10/2014 00:00

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Foto: Na represa de Nazaré Paulista a situação também é gravíssima. O nívelda água também vem caindo, a ponto de aparecerem árvores, ruínas de construções, as bombas de captação e equipamentos que estavam submersos há anos, como o pedalinho da foto.

A crise do abastecimento de água em São Paulo, fruto da inoperância da Sabesp em tomar providências preventivas vem fazendo com que a população desconte sua ira sobre os trabalhadores da empresa, que não têm culpa da desastrosa gestão do governo Alckmin. A situação é gravíssima, e o Sintaema vem dando entrevistas para os meios de comunicação para esclarecer que os trabalhadores estão sendo alvo de perseguição por conta deste quadro caótico.
Acima, fotos da Represa de Nazaré Paulista, onde o Sintaema esteve na última semana registrando a situação. 
Nesta semana o Sintaema deu entrevista à Rede Record, Portal IG, Jornal Brasil de Fato e até para a BBC de Londres. Abaixo, leia matéria da BBC, do Portal Ig e Jornal Brasil de Fato.

Em meio à crise hídrica, Sabesp convive com acusações e elogios

Luís Guilherme Barrucho
Enviado especial da BBC Brasil ao Rio de Janeiro

24 outubro 2014

Às 9 horas da manhã do dia 27 de janeiro de 2011, o Conselho de Administração da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) reuniu-se em sua sede, na Zona Oeste da capital paulista, para escolher quem comandaria a estatal pelos dois anos seguintes. À época presidente do conselho, a geógrafa Dilma Seli Pena, que se ausentaria dali minutos depois do início da reunião por força do regimento, foi escolhida por unanimidade como nova diretora-presidente da empresa, hoje no centro de uma polêmica devido aos temores cada vez mais consistentes de racionamento de água no Estado mais rico do Brasil.
Nesta quinta-feira, os reservatórios do sistema Cantareira, o mais importante da Região Metropolitana de São Paulo, voltaram a registrar recorde negativo. O nível das represas chegou a 3%. A Sabesp divulgou nesta sexta um índice já contabilizando a segunda cota do volume morto, e a capacidade "saltou" para 13,6%. O volume morto é a água das represas que, por ficar abaixo do ponto de captação, é puxada por bombas.
Desde 2011, Dilma Pena se mantém à frente da Sabesp, uma empresa de economia mista na qual o Estado de São Paulo, governado pelo PSDB, detém controle acionário (50,3% do capital social; sendo o restante negociado nos mercados financeiros brasileiro e americano).
Se a abertura de capital na bolsa, ocorrida há duas décadas, por um lado, avolumou as receitas da companhia, por outro abriu espaço para críticas quanto a sua gestão financeira, que cresce na medida em que a crise hídrica se avizinha, potencializada pela longa estiagem em São Paulo, a pior em 84 anos.
Para críticos, a Sabesp, ao deixar de ser 100% estatal, priorizou "o dividendo dos acionistas" em detrimento do "bem-estar da sociedade".

"A Sabesp passou a ser pautada por uma lógica de mercado", disse à BBC Brasil Rene Vicente dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema) e eletricista de manutenção da Sabesp desde 1998.

O engenheiro civil e ex-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), Julio Cesar Cerqueira Neto, que já participou de comissões de licitação da Sabesp e realizou diversos estudos para a empresa, concorda. Segundo ele, a estatal "está mais preocupada em gerar lucro" e, apesar de ter investido grandes somas, fez "escolhas erradas" na alocação desses recursos.
"Faltaram investimentos em novos mananciais. Se no passado esses recursos tivessem sido alocados, de forma a superar as variações do ciclo hídrico, certamente estaríamos passando por essa crise com folga", afirmou Cerqueira Neto.

"Como pode uma empresa pública buscar incentivar o consumidor a gastar menos água se, na outra ponta, tem de se comprometer a gerar o máximo de receitas para distribuir para os acionistas? É uma contradição", acrescentou Santos.

Em 2013, o lucro da estatal foi de cerca de R$ 1,9 bilhão de reais. No ano, a companhia diz ter investido R$ 2,7 bilhões.
De 2002 a 2012, as ações da Sabesp na Bolsa de Nova York registraram valorização de 601%. No mesmo período, seu valor de mercado triplicou, passando de R$ 6 bilhões para R$ 17 

Transparência
Tanto a Sabesp quanto o mercado rebatem as críticas.

"A Sabesp investiu R$ 9,3 bilhões entre 1995 e 2013, em medidas para aumentar a segurança do abastecimento de água", disse a empresa em nota enviada à BBC Brasil. "(Os) recursos permitiram aumentar a disponibilidade de mananciais, a capacidade de produção, o transporte de água tratada e a integração entre os sistemas produtores, além de ter ampliado a capacidade de reservação e de distribuição de água à população e, importante, com redução nas perdas. No período, a capacidade de produção subiu 57,2 para 73,3 metros cúbicos por segundo."

Críticos dizem que abertura de capital da Sabesp ‘priorizou acionistas’; defensores dizem que deixou a empresa mais transparente e eficiente
"São Paulo está enfrentando a maior seca dos últimos 84 anos, com índices pluviométricos muito abaixo da média, o que comprometeu principalmente o maior sistema de represas que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo, o Cantareira", acrescentou o comunicado.
As empresa disse também que as críticas estão "distantes da realidade".

"De 2004 a 2013, o lucro da Sabesp foi de R$ 12,43 bilhões. Somadas a parcela do lucro que financia os investimentos da Sabesp e a parcela destinada ao Governo do Estado sob a forma de dividendos, tem-se que 84,5% do lucro da Sabesp no período (R$ 10,5 bilhões) beneficiou a própria população de São Paulo, seja financiando obras de saneamento, seja financiando políticas estaduais de segurança, saúde, educação etc. Exatamente o oposto do que ocorre em diversas outras empresas públicas brasileiras que, tendo prejuízo, drenam recursos do orçamento da segurança, saúde, educação etc", prossegue o comunicado.
"O restante, R$ 1,92 bilhão, foi pago aos demais acionistas, sendo R$ 982 milhões (7,9% dos lucros) a investidores estrangeiros. Enquanto os lucros retidos para investimentos foram de R$ 8,56 bilhões, nesse período a Sabesp investiu R$ 16,8 bilhões. A diferença entre esses valores corresponde a financiamentos que a empresa consegue junto a instituições financeiras nacionais e internacionais, por conta de sua estrutura empresarial."

Analistas ouvidos pela reportagem da BBC Brasil afirmam que a abertura de capital favoreceu "inegavelmente" a companhia, garantindo-lhe maior transparência. Segundo eles, os dados financeiros da estatal ainda são "muito positivos", mesmo com a perspectiva negativa sobre o preço das ações diante da crise hídrica.
"A Sabesp tem índices muito bons e, sem dúvida, é uma empresa muito bem gerida do ponto de vista operacional. Nada mais saudável do que uma política de livros abertos", afirmou um dos analistas, que falou sob condição de anonimato, em alusão à abertura de capital da estatal.
"A crise hídrica pela qual a Sabesp passa hoje é resultante 70% da estiagem prolongada e 30% da falta de investimentos ou problemas de gestão", opinou.
Outro analista, que também pediu para não ser identificado, afirmou que a crítica quanto à política de distribuição de dividendos "não procede".
"A crítica de que a Sabesp só priorizou o lucro não procede. Pelas regras do Novo Mercado da BM&FBovespa (o segmento de mais alto nível de governança corporativa do Brasil), na qual a Sabesp é listada desde 2002, a companhia tem de distribuir para seus acionistas um mínimo de 25% de seu lucro em dividendos. A média da Sabesp nos últimos anos é de 30%", afirmou.
Para o americano Michael Gaugler, diretor da Brean Capital, sediada nos Estados Unidos, e que acompanha os resultados da Sabesp há dez anos, o problema é que "não está chovendo".
"Não houve melhor protetor dos recursos hídricos do que a Sabesp. Vi em primeira mão as melhorias estruturais e operacionais realizadas desde que os atuais diretores passaram a comandar a companhia. Eles investiram bilhões de reais na manutenção e na melhoria dos sistemas de reservatórios, incluindo a Cantareira. E continuam a investir pesadamente", afirmou ele à BBC Brasil.
Gaugler acrescenta que, apesar de o lucro bilionário, a lucratividade da Sabesp é "menor" do que as companhias de águas americanas.
"Entre as companhias de águas, a Sabesp é uma das menos rentáveis em tamanho. O lucro pode até ser alto, mas o nível de investimento que esse setor exige também é. Acredito que a companhia esteja de mãos atadas porque o governo ainda permanece como acionista majoritário".
Interferência política?
Outro ponto de discórdia se refere ao comando atual da Sabesp. Nesta sexta-feira, a Folha de S.Paulo divulgou um áudio em que a presidente Dilma Pena afirmou que uma "orientação superior" impediu a empresa de divulgar orientações para a população economizar água. O governo do Estado é acusado por opositores de não ter sido transparente na gestão da crise em meio ao processo eleitoral e a tentativa de reeleição de Geraldo Alckmin.
Formada por seis diretores, entre eles a diretora-presidente, Dilma Pena, a alta cúpula da estatal é escolhida pelo Conselho de Administração da companhia, composto, por sua vez, por nove membros. Oito deles são, atualmente, escolhidos pelo maior acionista – o Estado de São Paulo, governado pelo PSDB.
Em abril, foram indicados Mauro Arce (secretário de Recursos Hídricos de Geraldo Alckmin), Alberto Goldman (ex-governador paulista), Francisco Luna (secretário de Planejamento do governo José Serra), a própria Dilma Pena e outros quatro nomes (Claudia Pouto da Cunha, Jerônimo Antunes, Reinaldo Guerreiro e Walter Tesch).
Apenas dois diretores são funcionários de carreira da Sabesp: Luiz Paulo de Almeida Neto, diretor de Sistemas Regionais, e Paulo Massato Yoshimoto, diretor metropolitano, ambos na companhia desde 1979 e 1983, respectivamente. O restante, incluindo Pena, tem ligações históricas com gestões tucanas ou com nomes fortes do PSDB.
Nas últimas semanas, ela foi ouvida mais de uma vez pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Sabesp, criada em agosto pela Câmara Municipal de São Paulo para investigar o contrato da estatal com a Prefeitura para o fornecimento de água para a capital. Os membros da CPI também apuram obras de reparos na rede de distribuição na cidade e desperdício por causa de vazamentos.
Para o ex-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), Julio Cesar Cerqueira Neto, o loteamento dos cargos prejudica a estatal. "Já houve um tempo em que a Sabesp era comandada apenas por engenheiros sanitaristas, de dentro da companhia", assinala.
"A realidade é que nossos sistemas públicos, não apenas a Sabesp, mas outras estatais, como a Petrobras, ficam à mercê dos políticos", acrescenta.
"Nossa bandeira sempre foi que cargos internos fossem ocupados por funcionários de carreira, em todos os níveis. Acreditamos que o maior conhecimento da empresa proporciona melhor visão operacional do sistema", diz Santos, do Sintaema.
O advogado e professor de Direito da FGV-SP Mario Engler Pinto Junior, ex-presidente do Conselho de Administração da Sabesp, tem visão diferente. Para ele, a companhia "não é aparelhada politicamente".
"A Sabesp tem escolhido diretores que obviamente conjugam um compromisso com a agenda política, mas são técnicos, com uma competência técnica. Os diretores acabam sofrendo uma influência, uma pressão muito forte para agir de acordo com padrões técnicos que já estão consolidados", explica Engler.
"Mesmo os diretores executivos tem nível de autonomia de certa forma limitado por essa estrutura da carreira. Não é uma companhia aparelhada politicamente", acrescenta. "Mas é claro que eles precisam ter uma afinidade com o projeto de governo. Afinal, o Estado é dono da companhia. Ele tem um mandato social a cumprir."

Funcionários da Sabesp são ameaçados em bairros onde há falta d’água

De acordo com o sindicato da categoria, relatos de casos têm aumentado nos últimos meses; empresa rechaça as denúncias

IG

São Paulo – Ameaças, intimidação e até cárcere privado. É com esses temores que funcionários da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) estão indo ao trabalho em bairros onde tem faltado água nos últimos meses, período no qual a crise hídrica se agravou e os reservatórios atingiram níveis sem precedentes. Na última sexta-feira, o nível do Sistema Cantareira — o maior do país, responsável pelo abastecimento de 6,5 milhões de pessoas —, chegou a alarmantes 3,9%, o menor índice de sua história.

"A população está inflamando, ameaça colocar fogo na viatura, prende a gente na rua. Tem vários pontos de São Paulo que sabemos que se formos teremos dificuldade para ir embora", diz Rodolfo*, responsável por manobras de registro, nas quais abre e fecha a saída de água em áreas da região Oeste da Grande São Paulo. "O governo fica falando que não tem racionamento, que tem água. Então as pessoas acreditam. E quando a gente vai no lugar e precisa fechar a água, automaticamente eles acham que a culpa é nossa."

Volume armazenado no Sistema Cantareira é o mais baixo da história
Foto: Reuters
O trabalhador conta uma das situações mais complicadas com que já se deparou, quando um jovem tentou entrar em sua viatura para arrancar a chave da ignição do veículo. Subitamente, vizinhos também surgiram para dar ao morador apoio para impedir que Rodolfo fosse embora, fazendo barricadas com fogo em entulho na rua. "Na hora, não consegui pensar em outra coisa que não fosse ‘agora estou ferrado’", desabafa ele. "Só consegui sair de lá porque o cara deu bobeira e pude puxar o carro a milhão."

Também funcionário da área de manobra, Flávio* afirma que trabalhar na rua tem se tornado cada vez mais dificil, especialmente com a intensificação da divulgação sobre a crise hídrica paulista. "É aquela pressão dos moradores, que falam besteira para os trabalhadores, xingam. É bem desconfortável", desabafa, corroborado por outros três colegas de trabalho. "Você vai fazer manobra e já começam a reclamar, falando que estamos fechando a água. Mas a crise da Sabesp não é culpa do funcionário."

Apesar da frequência dos casos, as ameaças dificilmente são registradas pelos funcionários em Boletins de Ocorrência por medo de retaliação da empresa. Segundo os funcionários ouvidos pelo iG, existe uma orientação por parte da Sabesp para que os problemas relacionados à falta d´água não sejam divulgados, apesar de ser cada vez mais difícil de escondê-los. O Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema) afirma incentivar os trabalhadores a registrarem as denúncias ao menos à diretoria, mas raramente existe disposição de fazê-lo também por temor de represálias no emprego.

"Há um medo generalizado de ir a certas áreas e ao mesmo tempo um receio em se denunciar em relatórios que houve os ataques. Assim, o funcionário acaba não oficializando a ameaça à Sabesp e a empresa fecha os olhos, falando que está tudo uma maravilha", ressalta o presidente do Sistema, Rene Vicente dos Santos. Ele diz que leva pessoalmente os relatos às chefias de cada zona onde os casos acontecem. "O cara fica com medo de ser tachado de fazer corpo mole. E, infelizmente, acredita nisso e acaba não relatando as ameaças como deveria."

Santos diz que o sindicato recebe relatos de todas as regiões da cidade — Norte, Sul, Leste e Oeste. "Já chegaram algumas vezes a pegar os trabalhadores da manobra e obrigá-los a ficar na rua até a água voltar. Não se chega a agredir, mas as ameaças são constantes."

Para os funcionários, só há uma solução para se evitar a indignação da população nas ruas: a transparência do governo em relação à gravidade da crise. "Não tem essa de partido, de culpa de um, de outro. O fato é que não tem água, é só abrir a torneira para ver", diz Rodolfo. "Se houvesse racionamento com horários e dias definidos, a população entenderia. Não nos veria como mentirosos, mas como parceiros."

Procurada pelo iG, a Sabesp nega ter recebido denúncias sobre ameaças a seus funcionários. "A Sabesp informa que não há nenhum registro de violência a empregados que tenha sido notificada pelo Sistema", resume em nota.

*os nomes dos funcionários foram modificados para preservar sua identidade

Reportagem de David Shalom do iG

Jornal Brasil de Fato
“Na hora que o governo de SP vir que não tem jeito, vai ter que decretar o rodízio, porque água não tem”

Vagner Campos / Governo SP
Para Rene Vicente dos Santos a população tem que se preparar para esse cenário ruim

16/10/2014

Por Maria Aparecida Terra,

Especial para o Brasil de Fato

O rodízio é algo necessário que já de­via ter começado há muito tempo. A afir­mação é do presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente (Sintaema) do Estado de São Paulo, Rene Vicente dos Santos. Segun­do ele, atualmente existe um rodízio dis­farçado. “O que nós temos que discutir é um rodízio oficial”, afirma.

“O governo de São Paulo, devido à questão eleitoral, segurou o que pôde e ainda vai segurar, mas pelo que nós es­tamos vendo, logo mais vai vir uma pres­são grande, ele vai acabar assumindo”, afirma.

O sindicalista acredita que essa medi­da tem que ser tomada, nem que seja por intervenção do Ministério Público, uma vez que o governo não assume suas res­ponsabilidades.

Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o sindicalista culpa o governo pela atual crise hídrica. “Na nossa opi­nião, faltou investimento ao longo desses últimos 20 anos, investimentos de bus­ca de água, de reserva de outros manan­ciais”.

Brasil de Fato – São Paulo vive hoje uma crise do sistema hídrico. A partir de quando o Sintaema tomou conhecimento dessa realidade e da possibilidade de faltar água em São Paulo?

Rene Vicente dos Santos – Em ou­tubro, novembro do ano passado já se apontava uma escassez hídrica que ia afetar a região metropolitana. A partir daquele momento, já deveria ter sido co­locado em pauta por parte do governo do Estado e da empresa a necessidade de um racionamento. Fazer algum progra­ma, um debate maior com a população na questão de economizar, de se consu­mir menos água, coisa que não foi feita.

Você acha que o Sintaema tem algum papel nesse tipo de discussão? Vocês têm feito alguma coisa para que isso aconteça?

Acho que pela experiência que temos junto a classe trabalhadora do setor de saneamento, teríamos muito a contribuir no diálogo com os trabalhadores e com a empresa, com a população. Acho que o Sintaema é um instrumento de interface nesse diálogo, propositivo, de fazer o de­bate. E é um debate que tem que ser fei­to e não é a curto prazo. Qualquer uma das soluções que sejam apontadas, ne­nhuma é pra amanhã. É uma solução que tem que ter investimento a longos anos, tem a questão da economia de água, do uso racional, a busca em outros manan­ciais para o abastecimento da região me­tropolitana. É uma discussão profunda que envolve a sociedade de maneira ge­ral, as entidades representativas, as em­presas e os entes federais que são o go­verno federal, estadual e municipal. To­dos têm que debater porque é um proble­ma que transcende as fronteiras geográ­ficas dos municípios e do estado.

E existe alguém ou algo que você responsabiliza referente a essa crise no abastecimento?

Na nossa opinião faltou investimento ao longo desses últimos 20 anos, inves­timentos de busca de água, de reserva de outros mananciais. Temos o problema da devastação das matas ciliares e enormes plantações de eucaliptos em torno dos reservatórios que ajudam nessa seca. Sa­bemos que o eucalipto é um grande con­sumidor de água. Também faltou inves­timento por parte do governo na ques­tão do assoreamento das represas. Se vo­cê consegue aprofundar o leito das repre­sas – e isso tem que ser um investimento constante – você tem uma capacidade de reservação maior. A Companhia de Sa­neamento Básico do Estado de São Pau­lo (Sabesp) tem investido, mas os inves­timentos são feitos na área de ampliação e captação de recursos, que é a cobrança de água e tratamento de esgoto. Ela tem ampliado cada vez mais, mas é no senti­do de levar o hidrômetro para a casa dos moradores, de levar o sistema de coleta de esgoto para poder cobrar. Os investi­mentos feitos são dentro dessa lógica de rentabilidade que a empresa vive hoje.

Na última campanha eleitoral que reelegeu Geraldo Alckmin como governador do Estado, ele disse que não ia ter racionamento de água em SP. Você acredita nessa possibilidade?

O governo e a empresa vêm insistindo nessa tecla. O rodízio é algo necessário que já devia ter começado há muito tem­po. Há meses deveria ter sido implanta­do um rodízio oficial, não da maneira co­mo a Sabesp vem fazendo, que é dimi­nuindo a pressão nas redes à noite. Isso é também uma situação que tem que ser feita porque você diminui a pressão, os vazamentos e a demanda. Você tem uma economia em escala, mas o que nós de­fendemos é o rodízio aberto e um debate com a população de que é necessário ra­cionar, porque da maneira que o governo do Estado está atuando corre o risco de secarmos, literalmente, o sistema Canta­reira, que abastece 9,5 milhões de habi­tantes. O governo de São Paulo, devido à questão eleitoral, segurou o que pôde e ainda vai segurar, mas pelo que nós es­tamos vendo, logo mais vai vir uma pres­são grande, ele vai acabar assumindo e jogando a culpa do rodízio no Ministério Público, em ações públicas civis, para po­der tirar a responsabilidade que ele deve­ria ter frente a esse problema.

Numa entrevista que o Laércio Benko [presidente da CPI da Sabesp] deu para a TVT ele disse que a Sabesp tem feito, sim, racionamento, só que o disfarça usando o nome de “diminuição da pressão”. Qual a diferença entre esses dois termos?

Na verdade é algo que deve ser feito mesmo, é inegável porque se você man­tém a pressão na rede à noite com um consumo baixo o que acontece? Aumen­ta a pressão na rede e por consequência aumenta o desperdício de água através de vazamentos – que hoje está em torno de 25% do que é produzido. É um proces­so que a Sabesp deveria assumir. Na ver­dade, é um rodízio disfarçado e o que nós temos que discutir é um rodízio oficial. Tem que cortar a água e tem que fazer o debate com a população, não tem outra saída. A população foi educada dentro de uma lógica de que nunca iria faltar água, que a água é um bem infinito. Tem um sentimento que permeia a sociedade que é o seguinte: eu pago, eu faço o que eu quiser. E não é assim. Se nós não agirmos e não pensarmos coletivamente, vai so­brar pra todo mundo. Então tem que ser feito o rodízio oficial, até durante o dia se for preciso. A Sabesp deveria apresentar um plano de contingência, de abasteci­mento de escolas, hospitais. Tem que fa­zer esse debate com a população e o rodí­zio deve ser aplicado.

E como seria esse rodízio? Explica um pouco.

Seria você parar um tempo do dia, co­mo teve em outros momentos. Você fica 10 horas sem abastecimento, depois vol­ta. Tem que ter um rodízio programado, avisando a população que em determi­nados bairros da Zona Norte, por exem­plo, vai faltar água das 7 da manhã às 7 da noite e depois no outro dia na Zona Sul nos mesmos horários. Programar e mostrar para a população os horários em que faltará água, para segurar a deman­da, que é o meio mais eficaz de manter os reservatórios minimamente abasteci­dos para que não venham a secar literal­mente. Quanto mais você retira do Siste­ma e mais ele seca, mais tempo demora para se repor.

Sobre a ação civil pública que você falou, que pede a revisão imediata da retirada da água do Sistema Cantareira, por que você acha que chegou a esse ponto?

Sinceramente, acho que eles estão en­xergando. Quem esteve visitando o Siste­ma Cantareira viu que se continuar nes­sa onda – e eles estão apostando na chu­va que não está vindo – é inegável o fa­tor da escassez hídrica. As chuvas quan­do caem não caem onde deveriam cair que é na cabeceira do rio. Então o que acontece? Com esse cenário, eles entra­ram com ação e estão tentando brecar a retirada de água, porque do jeito que está vai secar o reservatório e isso vai causar um dano enorme para a população a lon­go prazo. Então a ideia é o quê? Segura agora, entra com a ação. Porque na ver­dade, na hora que o governo vir que não tem jeito, ele vai ter que decretar o rodí­zio, porque água não tem. Mesmo que através do debate apontem soluções, não virão do dia pra noite ou de uma sema­na pra outra. Tem que torcer muito pa­ra chover também. Eles estão agindo de uma maneira que vai ter que, uma hora ou outra, discutir a necessidade do racio­namento da água, porque senão isso daí vai ser uma reação em cadeia que vai co­meçar a afetar outros sistemas, como o Alto Tietê, o Rio Claro, o Riacho Gran­de, Guarapiranga. Para abastecer uma região, como o sistema é integrado, eles acabam desviando mais água de outras regiões, como eles estão fazendo agora com o Sistema Alto Tietê. Porque está ti­rando um pouco mais desse Sistema para suprir a demanda da região central. En­tão é algo necessário que tem que ser fei­to, nem que seja por intervenção do Mi­nistério Público, uma vez que o governo não assume suas responsabilidades.

De acordo com um dos promotores do Ministério Público que moveu a ação, a Sabesp sabia desde 2011 da possibilidade de faltar água e, em 2013, vários órgãos estavam sendo alertados de que isso poderia acontecer. Qual você avalia que seria a responsabilidade da Sabesp nesse caso?

Tem alguns estudos que apontavam para uma escassez hídrica muito grande nesse período. Mas a Sabesp apostou no imprevisível, que a chuva viria, a verda­de é essa. Devido à falta de investimen­to também, que não foram feitos, ela te­ve que assumir uma posição e manter até o fim. Diante de um cenário de eleição, em momento nenhum ela poderia assu­mir essa possibilidade de falta, tanto é que o governador insiste na tese de que não vai faltar água. Quem visitou o reser­vatório do Sistema Cantareira viu que a história é outra. Você vai lá e aquilo es­tá virando um deserto. Um deserto pró­ximo à região metropolitana. Diante des­se cenário, já deveria ter começado fazer investimento e apontado, se não para re­solver, para amenizar a situação que vi­vemos hoje.

Como garantir o abastecimento se essas previsões de chuva para os próximos dias não se concretizarem ou se não chover o suficiente para abastecer os reservatórios?

Na verdade, não tem como garantir. É por isso que nós achamos que é necessá­rio, antes de mais nada, precaução. O ro­dízio vem nesse sentido de você consu­mir o mínimo possível diante dessa cri­se. A Sabesp tem um sistema integrado de abastecimento que envolve os reser­vatórios em torno da região metropoli­tana, ela consegue fazer manobras e en­viar água de reservatórios como Billing, Guarapiranga, Alto Tietê, fazendo com que o essencial seja mantido. Ela conse­gue, através dessa integração, manter o abastecimento, mas como eu disse, se vo­cê começa a tirar mais do que vem sen­do reposto em outros reservatórios, vi­ra a reação em cadeia. Então, se a chu­va não vier, vai faltar água. A população também tem que se preparar para esse cenário ruim. Tem que ser feito esse de­bate franco e aberto com a população.

Você tem alguma consideração que gostaria de fazer?

Hoje a Sabesp é também uma empre­sa pública de abastecimento, só que ela vem atuando em bolsas de valores e mer­cado de ações. Nesse momento, se ex­põe a contradição de uma empresa que tem que levar saneamento e saúde à po­pulação, universalizar a captação e o tra­tamento de esgoto, universalizar o abas­tecimento de água potável e conscienti­zar a população de consumir de maneira racional. Ao mesmo tempo, ela trabalha com bolsa de valores e mercado de ações. Nós sabemos que no mercado de ações, para você ter lucro, você tem que vender e incentivar o consumo da sua mercado­ria. Quanto mais consumir, mais lucro vai ter a empresa, mais lucros vão ter os acionistas. Então nesse momento tam­bém se expõe a contrariedade que ela es­tá vivenciando por ter ações em bolsas de valores e mercado de ações. Acho que es­se é um ponto fundamental que deve ser explorado nesse debate.

Rene Vicente dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Es­goto e Meio Ambiente (Sintaema) do Estado de São Paulo

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