Agricultura familiar e agroecologia no combate à fome no Semiárido brasileiro

Publicado em 21/06/2022 08:25

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A fome é uma realidade que assola o Brasil de forma ainda mais desoladora no ano de 2022. Segundo o mais novo Inquérito da Fome no Brasil, em menos de um ano, ela triplicou na região Nordeste. Saltou de 7,7 milhões para 22,5 milhões, o que corresponde a 68% do total de pessoas em situação de insegurança alimentar grave no Brasil. A fome, em todos os níveis, afeta mais a população rural, 60% dos lares. Um percentual de 21,8% das famílias agricultoras que produziam os seus alimentos foram atingidas por essa chaga no Brasil.

Em meio a essa realidade, famílias agricultoras ligadas à Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) protagonizaram experiências exitosas de combate à fome e geração de renda, de forma sustentável, tais como Rede de Comercialização Xique-Xique e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

Rede de Comercialização Xique-Xique

No Estado do Rio Grande do Norte, que possui 27,5% da sua área total afetada por processos de desertificação, segundo dados do último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), e que sofre com estiagens severas nos últimos dez anos, a Rede de Comercialização Xique-Xique, coordenada pela jovem agricultora Nara Lima (27), conseguiu um feito. O espaço de comercialização garantiu a produção de alimentos suficientes para suprir as necessidades de consumo das próprias agricultoras, mas também para atender às demandas de compras coletivas de cestas emergenciais e dos pedidos feitos via delivery.

“De 2011 a 2019, a Rede sempre fechava no vermelho, não conseguia fechar as contas. Em 2020, em plena pandemia, vendemos 1 milhão e 500 mil reais. Isso foi resultado do isolamento social e das vendas por delivery que a gente aderiu”, informa Nara Lima.

Experimentos e formações em Agroecologia

É no Assentamento Nova Canadá, município de Canindé de São Francisco, em Sergipe, que se insere o protagonismo de Iva Santos de Jesus (34), mulher negra, agricultora, assentada da Reforma Agrária, que compõe a base local do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), na coordenação municipal e estadual, e que tem lutado pela soberania, segurança alimentar e nutricional no território do Alto Sertão Sergipano. Sua trajetória está intimamente ligada à construção e participação de espaços de organização social coletiva e de produção agroecológica que fazem da sua experiência uma referência territorial.

A busca incansável por formação da agricultora Iva Santos marca sua trajetória, assim como seu empenho à frente de ações estruturantes para o campesinato na região, como a implantação da Unidade de Produção Camponesa (UPC), pensada dentro das ações do MPA e com a qual contribuiu para sua criação e foi gestora em 2019, ao desenvolver práticas e processos de inovação e organização social camponeses, voltados para a produção agroecológica e mais resiliente.

A partir do crescimento de seu protagonismo, destaca-se a sua atuação no processo de produção e certificação de algodão agroecológico, realizado por meio do Projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos, uma iniciativa coordenada pela Diaconia, em parceria estratégica com a Embrapa Algodão e a Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Como exemplos vividos pela própria Iva, têm-se a pesquisa para controle de lagarta do algodão, o método de formação da Escola da Roça e das Brigadas Permanentes, espaços de formação dentro da UPC que, segundo a agricultora, são fundamentais para engajar e capacitar homens, mulheres e jovens dentro da prática camponesa.

Ressalta-se ainda o seu empenho em tornar o lote da família em uma área de produção agroecológica diversificada. Atualmente, a área encontra-se em transição e já possui uma diversidade de cultivos familiares que contribuem para o fortalecimento de sua experiência: milho, feijão, gergelim, girassol, algodão, melancia, palma, além da criação de galinhas, de cabras e ovelhas. A produção familiar é para o consumo e comercialização do excedente.

Uma outra estratégia importante a ser ressaltada é o processo de resgate e valorização das sementes crioulas. Por se tratar de uma região fortemente impactada pelo avanço de sementes transgênicas, a estratégia pensada foi a criação do o coletivo de produção, buscou parcerias tanto para o processo de estruturação da casa de sementes na UPC, bem como outros que viabilizassem diversas ações e pesquisas.

“Hoje eu tenho muito orgulho de mim, eu sei que conquistei alguma coisa e isso me deixa feliz. O que estamos construindo na Acopase é muito grande e eu sei que pode ser maior ainda. Não é fácil, mas hoje eu olho para nós e penso: somos nós que estamos construindo! E isso é grande. Olho para mim e vejo que estou fazendo o que em outro tempo eram outros consultores que faziam e hoje sou eu também. Olho e sei que sou uma agroecóloga e tenho um papel a ser cumprido. Eu posso dizer que sei acolher os meus semelhantes e reconhecer a importância deles também nesse processo. Não depende de ninguém vir auxiliar. Somos nós. Nós os agricultores que estamos fazendo essa história”, disse Iva Santos em 2021.

Fonte: ECO Nordeste | Foto: Leandro Molina

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